Porquê o Camões 2008 para João Ubaldo Ribeiro? Se para o Camões 2007 reuniu unanimidade a escolha de Lobo Antunes – sobre quem em 1996, nas páginas de um semanário nacional, já tecíamos, mais que o prognóstico, o desejo de ter nele um dos mais prováveis nobéis da Língua Portuguesa, ao lado de Saramago, Vergílio Ferreira, Jorge Amado, Melo Neto – e se será de aplaudir a escolha deste ano, discutível está a ser a decisão de em 2008 só ter entrado no pleito o Brasil. Polémicas à parte, tentemos perceber porque é que Ubaldo Ribeiro é o agraciado com o Prémio Camões 2008. Não sem antes dizer que A Língua de Camões: doce e outros paladares era o nome escolhido para estas notas.A Língua de Camões: doce e outros paladares, porquê? Justifique-se: considerações sobre a Língua Portuguesa têm sido, ao longo do tempo, feitas em vários registos, que vão desde o referencial pedagógico e científico, passam pelo apelativo pedagógico e formativo, e no expressivo e exortativo da poética desembocam (ou ter-se-iam aí iniciado). Estes discursos, em registos vários, surdem sobretudo em determinados momentos marcantes desta caminhada de séculos da Língua Portuguesa. Surdir é termo recém-incorporado, reinventado para dizer de um surgir espontâneo, que na recepção atrai a atenção, e não só dos especialistas. Um desses momentos marcantes é o que se configura com as novas fronteiras culturais e políticas, nas quais uma expressão cultural própria começa a revelar. Através da criação literária, primeiro. Depois, e com a independência, essas fronteiras tornam-se ainda mais definidas, no espaço do que futuramente, hoje, chamamos a Lusofonia.Eça de Queirós (então Queiroz), mais que tudo sobre o que escreveu sobre o Brasil, traçou com a sua pena impressionista mas certeira uma nota que valoriza sobretudo a Língua Portuguesa nesse país, já, onde ele era tão amado, e que nunca terá pisado, ele que esteve em Havana (onde dirimiu muitas lutas laborais envolvendo os contratados chineses vindos de Macau). Eça de Queirós era tão sensível à beleza plástica da língua que se falava no Brasil que na sua obra-prima Os Maias fala desse português doce, com açúcar, então um luxo e como tal caríssimo.Vejamos, aí, uma nota valorativa sobre esta língua portuguesa, que hoje, e cada vez mais, pensamos una e plural. Unidade e pluralidade assumidas, por exemplo, em 1986 na reunião de Lisboa que tratou do Acordo envolvendo pela primeira vez Os Sete da Lusofonia. Unidade e pluralidade assinaladas no Dicionário da Academia de Ciências – Secção Letras, editado em 2001, que assume morabeza, as-águas e azágua, faxi, morna e mornar (não confundir com ‘amornar’), entre largos milhares de novas entradas, aproximando-se do milhar os caboverdianismos.No mesmo sentido vai o dicionário de Antônio(sic) Houâiss, posterior e póstumo, que, se bem que centrado no português do Brasil, apresenta contributos das diversas línguas dos Oito.O que faz a língua? O léxico que está no dicionário? Se fosse só isso!… O léxico, e esse pode ser encontrado num dicionário, é apenas uma parte da língua e muitas vezes flutuante, instável sujeita a variações, sobretudo numa sociedade aberta, e cada vez mais aberta, porque as janelas são muitas e mudam sempre, com as aceleradas mudanças a nível mundial. E síncronas: agora nem é preciso um bater de asas da borboleta em Tóquio para agitar o ar no outro lado do Globo…O que faz a língua? O que faz a língua é a criação a que ela está sujeita, por exemplo a nível da organização dos seus constituintes, aquilo que muitos aprenderam como as partes da oração. O que faz a língua? O que faz a língua é essa criação, que vai do recorte sintáctico inovador, para inaugurar uma nova sintaxe plástica da pontuação. Ou seja, é o ritmo da respiração que determina as pausas e o leitor deve poder acompanhar esse ritmo. Criação, que por vezes caminha tão longe que as pessoas pensam: este autor, este, por exemplo, Saramago, estará louco, onde se viu não mostrar a fala das personagens utilizando o travessão, como dita o prontuário, e onde está o ponto, afinal está onde virgulou…O João Ubaldo Ribeiro não apontará para nenhuma ruptura nos parâmetros da escrita, tais como os referidos, dir-se-á que respeita a norma para, ousar-se-á dizer, para melhor se libertar a nível temático. A ruptura, a haver será na temática, uma observação, esta, que confessa tomar como base o lido no Viva o Povo Brasileiro, uma epopeia que canta os heróis, já não (só) os assinalados, dos arquivos documentais e das gestas literárias, mas também os que os documentos esqueceram ou apagaram. Como o anónimo povo, aqui reconstituído como o Leleu e a neta Dafé, os avoengos mortos e vivos, atirados para o quintal dos fundos para serem esquecidos. Avoengos esquecidos, até mesmo a Mãe Jesuína, mulata escura, destaca-se, que nunca deve aparecer, nem mesmo como antiga ama, sacrificada aia, na casa-palácio do filho. Tudo esquecer lutando contra si e a própria aparência racial para se reinventar um passado. Isto tudo faz Amleto, cujo nome, talvez predestinadamente escolhido para o afastar dos antípodas, afastar para longe as origens ao sul e reconstitui-las no mundo mais ao norte. Antepassados anglossaxónicos que a filha Carlota honra na palidez duma princesa nórdica. Mas em contraste chocante eis o Macário, o sétimo filho, cujos traços negróides o pai ameniza em ameríndios. O comendador ávido de legitimação busca-a na Europa, busca-a no incansável esforço de destacar o tronco ameríndio da sua consorte para justificar os traços fortes do filho sobrevivente à infância a que tantos não resistiram. O comendador triunfal, que tem de enfrentar o problema da raça, a esconder o tronco negro de África. O comendador a esforçar-se para historicizar a união entre o tronco ameríndio, o da princesa bugre, uma “Iracema”, e um europeu. União legítima entre a América tropical e o seu descobridor, o antepassado português também aristocratizante porque “imemorialmente ao serviço real”. Raízes do tronco ameríndio, raízes do tronco negro da África profunda e renovada, crioulizada, a emergir, por entre a copa singelamente iluminada, europeizada. Uma Europa que se quer transplantada, até nos tiques e agasalhos lanudos, eurotropicalizada.Este Viva o Povo Brasileiro dá-nos que pensar, porque surde da nação mais próspera, e da mais problemática em termos da sua identidade racial, dentre a comunidade lusófona. Terá sido por isso que escolheram o seu autor para representar a unidade e diversidade da Língua Portuguesa? A Língua Portuguesa língua está aí com toda a força, a assentar em raízes que começa a descobrir, raízes ávidas de tudo assimilarem, raízes aéreas para o futuro.Uma certeza: Agosto é tempo para continuar a ler para descobrir.
Maria de Lourdes Lima
Praia, 27 de Julho de 2008
Tuesday, July 29, 2008
Friday, November 9, 2007
Tininha e Eça, Meninos da Póvoa
Tininha e Eça, Meninos da Póvoa Depois da primeira vez, sempre causa alguma perplexidade – a quem lhe lê o traço breve, a quase não densidade da caricatura que Eça de Queirós apresenta de África, ele escritor, no centro de um império que muito crescera apoiado na base imensa que eram as riquezas de África – o ouro, os escravos, depois da malagueta, e antes até da nossa urzela: Pedindo licença para a primeira pessoa: expliquemos que reconhecemos que isto é pôr-se o minorca em bicos-de-pés, a ver se o veem melhor (vêem, já com a nova norma). É, n’Os Maias, aquele magnífico preto que faz parte do cenário onde está a dar-se a aparição (sic) da protagonista, Madame Gomes, afinal Maria da Maia, ele e ela dissimiles, díspares na cor e quiçá na condição social – a dúvida vem do facto de que tanto o negro como a mulher nesta contemporaneidade não têm direito a voto – , decerto émulos no que representam de exótico, logo perturbante, o magnífico e a deslumbrante, na placidez do Portugal que Eça via.E o que Eça via, anos depois nesta contemporaneidade que escreve o magnífico preto e a deslumbrante deusa loira, quase juraria, formara-se como sua percepção das coisas, do real, a partir da Póvoa de Varzim.A Póvoa natal, a da sua meninice, onde vive até á quase adolescência:É a isto que o leitor que eu sou, chega por associação neste primeiro sábado de Outubro, aberto o Lance onde se destacam as proezas duma poste que é campeã de África. Ela que um dia viveu na Póvoa, durante duas épocas, numa sua idade com certeza ainda bem juvenil.A Póvoa de Varzim de Eça, olvidada por um Saramago que aí passou mas sem marcas na memória, antes do Nobel e na Viagem pela sua terra. Nem memória nem sua fábula.A Póvoa de Varzim de Tininha, essa, nem sei se tem qualquer interesse para o leitor interessado nas suas proezas dela. E se, numa superprodução de science-fiction, passado e futuro se encontrassem e os meninos da Póvoa, ambos prodígios se não então sim no futuro, se os olhos de Zé Maria menino pudessem ver Tininha em afundanços que lhe valem prémios, ela no seu posto-poste, ele no cadeirão da sua secretária, numa qualquer cidade do seu périplo diplomático, traçando linhas para lançar as suas charges em romances de tese, em notas que são ensaios sobre o seu tempo - teria Eça escrito outras coisas de África, de Cabo Verde?Não mais a brevidade das descrições, a leveza da análise. Decerto ditadas por cirsunstâncias, como a que dita que a única África que conhece seja a do Egipto e esse decerto influenciado pelas leituras dos egiptólogos, em alemão, francês, inglês.E se Eça leu os indícios deixados cripticamente em Flaubert, Zola, que sub-repticiamente retratam as suas heroínas como herdeiras de um longínquo e insuspeito padrão genético, que, vindo de África, as tornaria seres apaixonados e apaixonantes até à desmesura que, subvertendo todas as regras sociais e morais, são punidas com a pena máxima?E então, Eça, lendo, teria decidido não enveredar por caminho tão perigoso? Senda que o levaria à arqueologia profunda, a que revelaria o padrão genético de uma população europeia, mas com uma costela próxima em África? Agustina, muito depois, com a Ema, pegou na deixa para adensar o mistério desta sua mulher de papel.Eça preferindo manter a superfície, todavia figura em segundo-plano o negro para o contrastar com a aparição que é Maria na sua resplandecente alvura divinal. Eça que retrata em notas sociológicas, longe pois da ficção, meninas alemãs, de coragem e ânimo viril enfrentando de fuzil em riste homens e bichos feras de África. Elas, tão contrastantes com as portuguesas vistas por um misógino ou lusófobo, talvez culpando a mãe mulher e portuguesa. Mas contra esta análise sempre se pode contrapor que a crítica literária não pode ver na criatura escrita uma projecção dos fantasmas do criador, vinda da Póvoa onde abandonado pela mãe, e qual Rómulo, cria-o uma Leal aia e ama-de-leite, de quem no entanto se terá de esquecer, mas de quem lançará para a posteridade o seu retrato na Aia que salva o seu príncipe Eça, ela dando o seu sangue, vida e futuro. O príncipe tem que esquecer para ocupar o seu lugar na sociedade. Esquecer é ultrapassar o estádio mítico, o estádio romântico, refugiar-se da devastação dessas eras de sombra na claridade da razão que traz o pensamento filosófico, e indo mais além avançar até à máxima fronteira, a da ironia que o vai pôr para sempre resguardado do medo, acima do vulgo timorato.Este Eça teria tido coragem de deter o olhar sobre a sua África, a temível, e decidir que vale a pena perder tempo para a conhecer. Sem medo.
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